Homo Mortalis
Assis Silva
Dificilmente
encontramos alguém que já não pensou sobre a morte, pois querendo ou não é um
fenômeno que abarca todo o ser humano. É fato incontestável que todos morremos,
mas nem todos concordam sobre o que é a morte. Batista Mondin em seu livro “o
homem, quem é ele?” [i][1]
nos apresenta três dificuldades de falar sobre o problema da morte, primeiro
porque faz parte do problema da vida e este em si já é árduo tratar, em segundo
vamos falar sem tê-la experimentado e por último pela quantidade de respostas
contraditórias que se tem sobre o assunto.
Três
considerações importantes:
1- É fato incontestável de que o
ser humano morre;
2- Que esse acontecimento diz
respeito a um ser dotado de autoconsciência;
3- Que mesmo ainda não termos
experimentado não nos foge completamente do nosso conhecimento.
Como
nós devemos nos sentir em relação à morte? Oque é a morte? Morre todo ser
humano? Algo dele ainda sobrevive? Perguntas como essas surgem em relação à
morte. O ser humano tem consciência desse fenômeno, por isso indaga a respeito.
Tomas Nagel no livro “Uma breve introdução à filosofia” diz que
dependendo da nossa concepção de morte, é que nós iremos sentir algo.
A
morte no sentido mais universal possível significa “cessação do processo vital
em um organismo vivo”. Na linguagem da biologia molecular, a morte é definida
como “a dissolução da estruturação molecular necessária para o fenômeno da
vida”. Do ponto de vista filosófico, mas também na linguagem ordinária, uma
definição muito comum da morte é a que diz que “a morte é a separação da alma e
do corpo”.
Dois tipos de morte: a clínica e
a absoluta.
Clinica:
É o “morrer” graças ao qual se verifica no homem a cessação das funções
essenciais do corpo.
Absoluta:
É a separação definitiva da alma e do corpo.
Junto
ao problema da morte vem a questão da imortalidade, se há a possibilidade de
vencer a morte ou se após a morte do corpo algo ainda sobrevive. Imortalidade significa
“perenidade da vida”, ou limitando-nos ao sentido etimológico do termo,
“in-(não)-mortalidade”, “ falta de morte”. Segundo são Tomás “imortalidade
significa certo poder de viver sempre de não morrer ”[2].
Algumas divisões de imortalidade:
Absoluta: É própria de Deus;
Condicionada: Das criaturas;
Natural: Procede dos princípios
que constituem uma coisa dada (ex: imortalidade dos anjos);
Sobrenatural: Esta é conferida a
um ente que por si deveria perecer (ex: o corpo humano).
Ao longo da
historia da filosofia ouve muitas teorias sobre a morte e a imortalidade, e
Platão foi o primeiro a enfrentar o problema de modo sistemático (nas obras do
Fédon e no fedro). Para Platão a morte era a libertação da alma do corpo, a
alma estava presa ao corpo e deveria se libertar. De Platão até Kant a maioria
dos filosóficos não considerava a morte como a extinção de todo homem, mas
apenas de uma parte, o corpo. A outra parte, a alma, continua a subsistir no
mundo dos espíritos.
Agostinho,
Tomás e outros pensadores cristãos entreviram no conhecimento intelectivo um
sinal de espiritualidade e dele tiraram um argumento em favor da imortalidade
da alma. Agostinho nos “solilóquios”diz que “a alma atinge a verdade no
conhecimento intelectivo. Ora, enquanto sede da verdade, a alma é imortal do
mesmo modo que a verdade” [3].
Para Kant a
razão especulativa é expulsa da metafisica: ela se deve limitar ao mundo dos
fenômenos, sem poder dizer nada sobre o seu sentido profundo, sobre seu
significado último. Todavia do ponto de vista da razão prática, Kant deve
reconhecer a imortalidade da alma como uma exigência essencial da moralidade.
Enquanto antes de Kant a maioria dos filósofos afirmava a imortalidade da alma,
depois de Kant a grande maioria negava-a.
Freud
considera a morte como um instinto próprio de todo ser vivo. Ora dado que a
vida teve origem no mundo inorgânico, ela tende a retornar para a substância
inorgânica: a vida tende para a morte, o escopo da vida é, portanto a morte.
Para Nietzsche a morte é a suprema possibilidade da liberdade humana.
Quanto ao
sentido da morte, os pensadores do nosso século estão divididos em duas
tendências opostas:
Tendência niilista: para qual a morte é o fim total do homem, de
toda a sua realidade psicossomática;
Tendência não niilista: para a qual a morte não assinala o
fim total do homem.
Para Heidegger que é um
existencialista, a morte pertence à estrutura fundamental do homem. “A possibilidade, mas própria, não
relativa e não ultrapassável do homem é a morte. Ele não a procura
posteriormente no curso de sua vida, mas mal começa a existir e já está lançado
nessa possibilidade” [4].
Para Sartre o homem é essencialmente liberdade, mas é uma liberdade finita,
limitada. Um de seus limites intransponíveis é a morte.
A
solução niilista do problema da morte hoje está na moda não apenas entre os
existencialistas, mas também entre os marxistas e os neopositivistas. Alguns
pensadores como Garaudy e Bloch, consideram insatisfatória a solução marxista
clássica segundo a qual a morte do individuo é um evento necessário para o
progresso da sociedade e para o triunfo da classe proletária. Bloch distingue
na morte um aspecto social e um aspecto natural.
Gabriel
Marcel filósofo francês está persuadido de que não existem provas da
imortalidade da alma. Para Karl Jaspers outro existencialista assim como
Gabriel Marcel exclui que a filosofia pode fornecer provas sobre a imortalidade
da alma “é a melhor das hipóteses, a expressão de uma fé inconfessada”[5]. Teilhardde
Chardin não admite a imortalidade no sentido “espiritualista”, platônico de
cunho tradicional e, todavia, sustenta que a morte total seja uma hipótese
absurda.
Algumas características do
fenômeno da morte:
Individualidade: A
morte é um acontecimento que cada individuo deve enfrentar por conta própria. Ninguém
pode assumir a morte do outro. Cada um “pode morrer por outro”... Mas esse
morrer por outro não pode nunca significar que a o outro seja substituída a sua
própria morte.
Universalidade: Todos
caem sobre a foice da morte: ricos e pobres, brancos e negros... Ela não olha a
face de ninguém antes de desferir o seu golpe e, portanto, não toma em
consideração nem a posição social, nem a raça, nem a idade, nem o sexo, nem a
religião.
Inelutabilidade: contra
a morte não há nada o que fazer.
Iminência: a morte
pode vir a qualquer momento.
Inexorabilidade:
diante da morte toda oração, súplica é vã.
Temibilidade: por
causa das características precedentes, a morte parece assustadora. Ela suscita
horror, aversão, angustia o homem.
Apenas
pela observação e pela filosofia não temos elementos para provar a
sobrevivência da pessoa humana após a morte. Ulteriores luzes a respeito
podemos obter apenas depois da morte, ou então também durante a vida presente,
mas não por via filosófica, mas confiando, como sugere Platão, na divina
revelação.
[1]
Mondin, batista. O homem, quem é ele?Elementos de antropologia filosófica
(1926)
[2] “immortalitasdicitpotentiamquandam
ad semper vivendu et non moriendum” (Tomás, In II sent., d. 19, q. 1, a. 5).
[3]
Agostinho, solilóquio, II, c. 13, nn. 23-24.
[4] Heidegger, Sein und Zeit, cit., p. 250.
Comentários
Postar um comentário